A angústia é um dos afetos que acompanha o ser humano desde os primórdios de sua existência. Quando chega ao mundo, a criança vivencia intensas sensações ao se deparar com estímulos diversos e desconhecidos, que lhe provocam desconforto, medo e angústia.
Este é o momento inaugural, pois ao longo do desenvolvimento infantil, período fundante da constituição psíquica para a psicanálise, no qual, manifestações de angústia acontecem, faz-se necessária a sua compreensão, considerando que afeta a estruturação do aparelho psíquico. As pesquisas em psicanálise, também vem trazendo evidências da inter-relação de episódios que ocorram durante o período do desenvolvimento infantil com a formação de sintoma
Os estados de angústia na infância estão intrinsecamente relacionados com os pais. Farias(1998) refere que desde o nascimento, passando pela constituição subjetiva e período edípico as figuras parentais influenciam a partir da função que exercem. Portanto a função paterna não pode ser separada da função materna, considerando que o pai somente se tornará como tal, à medida que a mãe assim o nomear, e a intersecção destas funções, se configurarão como constituintes do sujeito (apud, Bolsson & Benetti, 2011, p. 560).
De acordo com Costa (2007) ao nascer, a criança ainda não está constituída e isto vai se estabelecendo na interação com outro, inicialmente com a mãe ou o cuidador (apud, Bolsson & Benetti, 2011, p. 560). Por sua vez, Ferrari e Piccinini (2010), verificaram que nesta interação vai se inscrevendo uma narrativa parental para este sujeito a partir da representação existente, sendo esta, anterior a natividade.
A angústia é passível de ser vista nas fases psicossexuais, nas quais algumas experiências podem ser geradoras de aflição, como no trauma do nascimento, no desmame e no período do treino esfincteriano, episódios estes que remetem à separação da mãe (Bolsson & Benetti, 2011, p. 561).
O sofrimento psíquico pode ainda invadir a infância com severa intensidade, a partir de manifestações de angústia vividas em estágio posterior à constituição e de caráter mais edípico o que pode levar a formação de sintoma, favorecendo assim, a instalação de uma neurose infantil.
Segundo Zornig, (2001, p.185) “…a clínica psicanalítica com crianças apontaria para duas vertentes: para a posição “infantil” de dependência e alienação estrutural da criança frente aos seus cuidadores fundamentais; assim como para a possibilidade de constituição de sua neurose infantil como resposta aos significantes enigmáticos e obscuros que vêm do campo do inconsciente dos pais.”
No caso do pequeno Hans, que consta no texto de Freud de 1909, momento inaugural da análise com crianças, pode ser entendido que a formação do sintoma do menino, fobia por cavalos, estava associado à ameaça de castração devido a ao desejo que sentia por sua mãe, ou seja, o conteúdo recalcado se apresentava a partir da angústia.
A indicação para tratamento das manifestações de ansiedade na infância e nos quadros em que é identificada uma neurose infantil, são empregadas a psicanálise de criança e a psicoterapia psicanalítica, como método terapêutico, em que se utiliza a técnica de associação livre a partir do desenho, jogos e o brincar livre. Na prática, a partir do estabelecimento da aliança terapêutica, serão elucidados aspectos inconscientes recalcados formadores do sintoma e na transferência, favorecer o alívio das excitações massivas.
No trabalho com crianças também é necessário a inclusão dos pais, em que serão estabelecidos encontros, a fim de possibilitar a efetivação do exercício analítico. O objetivo é facilitar que os estes distingam aspectos inconscientes implicados na relação com a criança. O manejo da ocorrência de possíveis transferências cruzadas nesta modalidade de atendimento, é fundamental para que não venham a comprometer o tratamento. Por outro lado, é suscetível ser solicitada, a intervenção de equipe multidisciplinar, para a complementação da abordagem terapêutica com o paciente.
O estudo da angústia, suas manifestações e o sintoma na infância são de fundamental importância para trabalho analítico, independentemente da idade do paciente. O psicoterapeuta de orientação psicanalítica deve estar atento as interações parentais com a criança a fim de obter um entendimento mais adequado do sofrimento psíquico do paciente e então poder estabelecer um plano terapêutico. As contribuições de Freud neste campo da Psicanálise, se configuram como um paradigma para a clínica com crianças.
Em suma, os pais devem estar atentos a alguns sinais que as crianças venham apresentar em suas rotinas para então buscarem ajuda profissional. A criança passa a mudar seu comportamento, especialmente as menores, que ainda não conseguem nomear suas emoções e pensamentos. Dentre eles destaco: sentimento de rejeição, preocupação exacerbada com o futuro, apresenta medo de ser abandonado, medo de ser ridicularizado e exposto, medo muito grande de errar, imagina que irá perder seus pais e entende que o mundo representa uma grande ameaça. Não naturalize o comportamento de seu filho. Busque ajuda!
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Bolsson, J.Z., Benetti, S.P.C (2011). As manifestações de angústia e o sintoma na infância: considerações psicanalíticas. Revista Mal-Estar e Subjetividade, Fortaleza, v. XI, n2, p. 555-589, jun2011.
Ferrari, A. G., & Piccinini, C. A. (2010). Função materna e mito familiar: Evidências a partir de um estudo de caso. Ágora, 13(2), 243-257.
Freud, S. (1909). Análise de uma Fobia em um Menino de Cinco Anos. Rio de Janeiro:Imago,1990 (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud,v. X).
Zornig, S. A.-J. (2001). Neurose infantil, neuroses da infância. Psyché, 8, 183-19