Nosso país foi o último do ocidente a abolir a escravização. Lamentavelmente ela ainda vive entre nós. O racismo reflete os efeitos do cativeiro, disfarçando os mesmos símbolos e práticas, condenando pessoas já marginalizadas ao descaso, a nenhum acesso a conhecimento de qualidade, podendo assim ser naturalmente dominadas e exploradas. A exclusão, a aversão de culturas e a fúria são memórias que marcam nossa sociedade até hoje, uma herança desumana que nos acompanha desde a colonização.

“No mundo conceitual branco, o sujeito negro é identificado como o objeto “ruim”, incorporando aspectos que a sociedade branca tem reprimido e transformado em tabu, isto é, agressividade e sexualidade. Por conseguinte, acabamos por coincidir com a ameaça, o perigo, o violento, o excitante e também o sujo, mas desejável – permitindo à branquitude olhar para si como moralmente ideal, decente, civilizada e majestosamente generosa, em controle total e livre da inquietude que sua história causa.” ( Kilomba, 2019)

Pode-se inferir também uma espécie de hierarquização narcísica. A negritude tem o seu narcisismo atacado, ferido de morte, considerando que o processo de identificação ocorre a partir do desejo e olhar da pessoa que exerce a função materna e também sob o ponto de vista da imagem corporal. Neste sentido o trauma dos efeitos do racismo e discriminação perverte o auto-conceito da negritude a partir da assimilação inconsciente do mito negro, passando a nutrir como padrão identificatório, a brancura.

Fanon (2020) e Souza (1983), bem como outros escritores, que pesquisaram a respeito desta temática , certificaram que realmente existe um mito a cerca dos negros, e que afeta essencialmente as subjetividades. Este mito confere aos pretos e pretas um lugar de desvalorização, num estatuto de sub-humano acarretando uma série de danos no âmbito social e psíquico.

Já é tempo de nos implicarmos com a dor emocional decorrente da violência visível e invisível praticada através do racismo estrutural vigente em nossa sociedade. Tenho como compromisso também acolher o sofrimento de pessoas pretas, dando espaço para a voz e elaboração dos danos causados pelo processo discriminatório vivenciado no cotidiano desde a infância. É possível experimentar cada vez mais uma postura antirracista, visando maior qualidade nas relações raciais, através da tolerância e respeito às diferenças.  A Psicanálise e a sociedade tem esta reparação a fazer. Conte comigo!

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. São Paulo: UBU, 2020.

KILOMBA, Grada. Memórias da Plantação: Episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.

SOUZA, Neusa S. Tornar-se negro ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Graal, 1983.

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